terça-feira, fevereiro 11, 2014

REPÚBLICA E DESENVOLVIMENTO


Um bom artigo de Luiz Carlos Bresser Pereira

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizcarlosbresserpereira/2014/02/1409833-republica-e-desenvolvimentismo.shtml

***
NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002651355455&ref=tn_tnmn

Marcadores: ,

sábado, setembro 01, 2012

Biografia: John Locke
Durante os tumultos políticos do século XVII, quando o primeiro programa liberal se desenvolveu, o argumento mais influente pelos direitos naturais nasceu da pena do intelectual John Locke. Ele expressou a opinião radical de que o governo tem a obrigação moral de servir as pessoas protegendo sua vida, liberdade e propriedade; explicou o princípio dos freios e contrapesos para limitar o poder do governo; e defendeu o governo representativo e o estado de direito. Denunciou a tirania e insistiu que, quando o governo viola os direitos individuais, as pessoas têm o direito legítimo de rebelar-se. Estas opiniões foram expressas de forma mais completa em seu famoso Segundo tratado sobre o governo civil, e eram tão radicais que ele jamais ousou assiná-lo (ele assumiu a autoria apenas em seu testamento). Os escritos de Locke tiveram muita importância na inspiração dos ideais liberais da revolução americana, um exemplo que inspirou povos por toda a Europa, a América Latina e a Ásia.
Thomas Jefferson considerava Locke, junto com seu compatriota Algernon Sidney, o mais importante pensador da liberdade. Locke ajudou a inspirar as ideias radicais de Thomas Paine sobre a revolução. Ele entusiasmou George Mason. De Locke, James Madison extraiu seus princípios mais fundamentais a respeito da liberdade e do governo. As obras de Locke fizeram parte da educação autodidata de Benjamin Franklin, e John Adams acreditava que tanto meninos quanto meninas deveriam aprender sobre Locke. O filósofo francês Voltaire chamou Locke de “o homem da maior sabedoria. O que ele não viu com clareza, não tenho esperanças de jamais ver”.
No entanto, ao começar a desenvolver suas ideias, Locke era um acadêmico de Oxford sem nenhuma distinção. Ele tinha uma breve experiência em uma missão diplomática fracassada e era um médico sem as credenciais tradicionais e com apenas um paciente. Sua primeira grande obra não foi publicada até seus cinquenta e sete anos. Asma e outras doenças crônicas o perturbavam.
Não havia muito na aparência de Locke que pudesse sugerir grandeza. Era alto e magro. Segundo o biógrafo Maurice Cranston, tinha um “rosto longo, nariz grande e olhos suaves e melancólicos”. Embora tenha tido um caso amoroso que “roubou-me o uso da razão”, Locke morreu solteiro.
Mesmo assim, alguns de seus contemporâneos notáveis tinham grande respeito por Locke. O matemático e físico Isaac Newton apreciava sua companhia. Locke ajudou o quaker William Penn a recuperar sua boa reputação quando ele se tornou um fugitivo político, assim como Penn conseguira fazer Locke ser perdoado quando ele havia sido um fugitivo político. O famoso médico inglês Dr. Thomas Sydenham descreveu-o como “um homem que, pela agudeza de seu intelecto, pela firmeza de seu discernimento, pela simplicidade, ou seja, pela excelência de seus modos, posso seguramente declarar ter, entre os homens de nossa época, poucos iguais e nenhum superior”.
John Locke nasceu em Somerset, Inglaterra, em 29 de agosto de 1632. Era o filho mais velho de Agnes Keen, filha de um curtidor de couro de uma cidade pequena, e John Locke, um advogado puritano de poucas posses que trabalhava como assistente de juízes de paz.
Locke tinha dezessete anos quando forças a serviço do parlamento enforcaram o rei Carlos I, abrindo caminho para a ditadura militar de Oliver Cromwell. Em 1652, após se formar na prestigiada Westminster School, Locke ganhou uma bolsa para estudar em Christ Church, na Universidade de Oxford, que formava principalmente clérigos. Em novembro de 1665, através de seus contatos em Oxford, Locke foi enviado para uma missão diplomática em Brandenburgo. A experiência foi reveladora, porque Brandenburgo tinha uma política de tolerância de católicos, calvinistas e luteranos, e havia paz.
Durante o verão de 1666, o rico e influente Anthony Ashley Cooper, Conde de Shaftsbury, visitou Oxford. Lá ele conheceu Locke, que então estudava medicina. Cooper, um defensor da tolerância religiosa (exceto para católicos), sofria de um cisto no fígado que corria o risco de infecção e inchaço, e convidou Locke para ser seu médico pessoal. Locke mudou-se para um quarto da Exeter House, mansão de Cooper em Westminster, em Londres. Quando a infecção de Shaftsbury piorou, Locke administrou um tratamento bem-sucedido.
Shaftsbury continuou a empregar Locke para analisar a tolerância religiosa, a educação, o comércio, e outros assuntos relacionados, e, entre outras questões, Locke se opôs aos esforços do governo para restringir as taxas de juros. Locke participava de praticamente todas as atividades de Shaftsbury. Shaftsbury formou o partido Whig, e Locke escreveu cartas para ajudar a influenciar as decisões do parlamento. Shaftsbury ficou preso por um ano na Torre de Londres; e então ele ajudou a passar a lei de Habeas Corpus (1679), que tornava ilegal a detenção pelo governo de qualquer pessoa contra a qual não houvesse acusação formal, e especificava que ninguém poderia ser levado a julgamento duas vezes pela mesma acusação. Shaftsbury apoiou leis de exclusão, cujo objetivo era retirar o irmão católico do rei da linha de sucessão.
Em março de 1681, Carlos II dissolveu o parlamento, e logo ficou claro que ele não pretendia convocá-lo novamente. Consequentemente, a rebelião era a única forma de prevenir o absolutismo da dinastia Stuart. Shaftsbury era o oponente mais perigoso do rei, e Locke estava a seu lado. Ele preparou um ataque contraPatriarcha, or The Natural Power of Kings Asserted [“Patriarcha, ou a afirmação do poder natural dos reis”] (1680), de Robert Filmer, que alegava que Deus sancionava o poder absoluto dos monarcas. O ataque era arriscado, pois poderia facilmente ser alvo de processos judiciais se fosse considerado um ataque contra o rei Carlos II. O autor de panfletos James Tyrrell, que Locke havia conhecido em Oxford, deixou anônimo seu próprio ataque contra Filmer, Patriarcha Non Monarcha or The Patriarch Unmonarch’d [“Patriarcha Non Monarcha ou O patriarca não é monarca”], que apenas deixava implícito o direito de se rebelar contra tiranos.
Locke trabalhou em seu quarto na Exeter House de Shaftsbury, cujas paredes eram cobertas de estantes de livros, baseando-se em sua experiência política. Ele escreveu um tratado que atacava a doutrina de Filmer, negando a alegação de que a Bíblia sancionava tiranos e de que os pais tinham autoridade absoluta sobre seus filhos. Ele então escreveu um segundo tratado, que apresentava um grandioso argumento em prol da liberdade e do direito do povo de se rebelar contra tiranos. Os princípios eram substancialmente derivados de Tyrrell, mas Locke os levou a suas consequencias mais radicais: um ataque explícito contra a escravidão e uma defesa da revolução.
Conforme Carlos II aprofundava sua campanha contra os rebeldes, Shaftsbury fugiu para a Holanda em novembro de 1682, e lá faleceu, dois meses mais tarde. Em 21 de julho de 1683, é provável que Locke tenha visto a Universidade de Oxford queimar livros considerados perigosos em Bodleian Quadrangle. Foi a última queima de livros na Inglaterra. Locke possuía alguns dos títulos condenados e, temendo que seu quarto fosse revistado, escondeu os rascunhos de seus dois tratados com Tyrrell. Ele deixou Oxford, visitou propriedades rurais que havia herdado de seu pai, e fugiu para Rotterdam em 7 de setembro. O governo inglês tentou obter sua extradição, para que fosse julgado, e, presumivelmente, enforcado. Ele adotou o nome de Dr. Van den Linden, e assinava suas cartas como “Lamy” ou “Dr. Lynne”. Prevendo que o governo pudesse interceptar sua correspondência, ele protegeu seus amigos referindo-se a eles por números ou nomes falsos.
Carlos II morreu em fevereiro de 1685, e seu irmão assumiu o trono, tornando-se Jaime II. O novo rei passou a promover o catolicismo na Inglaterra. Substituiu os anglicanos em cargos da igreja e da polícia por católicos, e nomeou oficiais católicos para o exército. Tudo isso foi uma ameaça para os ingleses, que prezavam sua independência tanto do Papa quanto dos reis católicos.
Enquanto isso, Locke, ainda na Holanda, trabalhava em sua obra-prima, Ensaio sobre o entendimento humano, que exortava as pessoas a basear suas convicções em observações e na razão. Ele também escreveu uma carta em defesa da tolerância religiosa (exceto para ateus, que não poderiam fazer juramentos legalmente válidos, e católicos, leais a uma potência estrangeira).
Em junho de 1688, Jaime II anunciou o nascimento de um filho – e surgiu a ameaça de uma sucessão católica. Os Tories, ingleses defensores do absolutismo monárquico, adotaram ideias revolucionárias dos Whigs. O holandês Guilherme de Orange, concordando em reconhecer a supremacia do parlamento, atravessou o Canal da Mancha em 5 de novembro de 1688, e, em um mês, Jaime II fugiu para a França. Esta Revolução Gloriosa garantiu uma sucessão protestante e a supremacia do parlamento sem violência.
Locke retornou à Inglaterra, e ao longo dos doze meses seguintes suas principais obras foram publicadas. De repente, ele se tornou conhecido. Sua Carta acerca da tolerância, publicada em outubro de 1689, opunha-se à perseguição e pedia tolerância para anabatistas, independentes, presbiterianos e quakers. “A Magistratura”, declarou Locke, “não deve proibir a pregação ou profissão das opiniões especulativas de nenhuma igreja, porque elas não têm relação alguma com os direitos civis dos súditos. Se um católico romano acredita que aquilo que os demais homens chamam de pão é realmente o corpo de Cristo, ele não lesa o próximo de forma alguma. Se um judeu não acredita que o Novo Testamento é a palavra de Deus, ele não altera em nada os direitos civis dos homens. Se um pagão duvida de ambos os Testamentos, ele não deve por conta disso ser punido como um cidadão pernicioso”. A Carta de Locke inspirou respostas, e ele escreveu duas outras cartas em 1690 e 1692.
Os dois tratados de Locke sobre o governo também foram publicados em outubro de 1689 (com a data de 1680 na folha de rosto). Embora filósofos posteriores os tenham ridicularizado porque Locke baseava seu pensamento em noções arcaicas a respeito de um estado de natureza, seus princípios fundamentais permanecem. Locke se preocupava com o poder arbitrário, que “se torna tirania, não importando se tal poder é exercido por um ou por muitos”. Ele defendia a tradição do direito natural, cuja história remonta aos judeus antigos: a tradição segundo a qual os governantes não podem, legitimamente, fazer o que bem entenderem, porque as leis morais se aplicam a todos. “A razão, que é esta lei”, declarou, “ensina a toda a humanidade, que precisa apenas consultá-la, que, sendo todos iguais e independentes, nenhum homem deve prejudicar outro em sua vida, saúde, liberdade e posses”. Locke descreveu o império da lei: “viver segundo uma lei estável, comum a todos daquela sociedade, e criada pelo Poder Legislativo da sociedade; Liberdade de seguir minha própria vontade em todas as coisas sobre as quais a lei não disponha, e não estar sujeito à vontade inconstante, incerta, desconhecida e arbitrária de outro homem”.
Locke explicou que a propriedade privada é absolutamente essencial para a liberdade: “Todo homem tem direito de propriedade sobre sua própria pessoa. A ela ninguém tem direito algum além dele próprio. O trabalho de seu próprio corpo, podemos dizer, pertence a ele… O grande e principal fim, portanto, pelo qual os homens unem-se em sociedades e submetem-se a governos é a preservação de sua propriedade”. Para Locke, as pessoas legitimamente transformam propriedade comum em propriedade privada ao misturar seu trabalho com ela, melhorando-a. Marxistas gostavam de afirmar que isso significa que Locke acreditava na teoria do valor-trabalho, mas ele se referia à origem da propriedade, e não do valor.
Ele insistia que o povo é soberano, e não seus governantes. O governo, escreveu, “não pode nunca ter o poder de tomar para si mesmo o todo ou parte da propriedade dos súditos sem seu consentimento. Pois isso seria efetivamente deixá-los sem propriedade alguma”. Ele explicita ainda mais este raciocínio: os governantes “não podem recolher impostos sobre a propriedade do povo sem o consentimento do povo, expresso por eles mesmos ou seus representantes”. Ele então afirma o direito explícito à revolução: “Quando os legisladores tentam tomar e destruir a propriedade do povo, ou reduzi-lo à escravidão sob poder arbitrário, eles se colocam em estado de guerra com o povo, que está então desobrigado de qualquer obediência e deixado ao refúgio comum contra a força e a violência dado por Deus a todos os homens. Portanto, sempre que o legislativo transgredir esta regra fundamental da sociedade, e, por ambição, medo, loucura ou corrupção, tentar tomar para si ou pôr nas mãos de qualquer outro um poder arbitrário sobre as vidas, liberdades e posses do povo; por essa quebra de confiança ele abre mão do poder que o povo lhe havia concedido para fins bastante contrários, e ele retorna ao povo, que tem o direito de retomar sua liberdade original”.
Para garantir seu anonimato, Locke negociou com o impressor através de um amigo, Edward Clarke, que pode ter sido a única pessoa a conhecer a verdadeira identidade do autor. Locke negou rumores de que ele seria o autor, e implorou a seus amigos para que mantivessem suas especulações em segredo. Ele cortou relações com aqueles que, como James Tyrrell, insistiam em se referir a ele como o autor. Locke destruiu os manuscritos originais e todas as referências às obras em seus escritos. Ele só reconheceu a autoria por escrito em um anexo a seu testamento, assinado poucas semanas antes de sua morte. Ironicamente, os dois tratados quase não receberam atenção durante sua vida. Ninguém nem se deu ao trabalho de atacá-los, como aconteceu com as obras assinadas de Locke sobre religião.
A assinatura de Locke apareceu no Ensaio sobre o entendimento humano, que foi publicado em dezembro de 1689 e fez dele o principal filósofo da Inglaterra. O ensaio desafiou a doutrina tradicional de que o aprendizado consiste apenas da leitura de textos antigos e da absorção de dogmas religiosos. A compreensão do mundo, argumentava ele, exige observação. Ele exortava as pessoas a pensarem por si mesmas, usando a razão como guia. Este ensaio se tornou uma das obras filosóficas mais reeditadas e influentes.
Em 1693, Locke publicou Alguns pensamentos referentes à educação, oferecendo muitas ideias que soam tão revolucionárias hoje como soaram na época. Ele declarou que o objetivo da educação é a liberdade. Ele acreditava que dar um exemplo pessoal é a forma mais eficiente de ensinar valores morais e habilidades fundamentais, e por isso recomendava que as crianças recebessem sua educação em casa. Ele tinha objeções às escolas estatais e apelava aos pais para que estimulassem o gênio único de cada criança.
Francis e Damaris Marsham, amigos de Locke, convidaram-no a passar seus últimos anos em Oates, sua casa de campo em North Essex, a cerca de vinte e cinco milhas de Londres. Ele tinha um quarto no térreo, e um estúdio que continha a maior parte de sua biblioteca de 5.000 volumes. Ele insistia em pagar: uma libra por semana para si mesmo e seu empregado, mais um xelim por semana para seu cavalo. A saúde de Locke piorou gradualmente, e em outubro de 1704 ele mal conseguia levantar-se e vestir-se. Por volta das três horas da tarde de sábado, 28 de outubro, ele faleceu, sentado em seu estúdio em companhia de Lady Marsham. Tinha setenta e dois anos. Foi enterrado no cemitério de High Laver.
Durante a década de 1720, dois autores ingleses radicais, John Trenchard e Thomas Gordon, publicaram as Cato’s Letters [“Cartas de Catão”], uma série de ensaios publicados em jornais londrinos que tiveram influência direta sobre os pensadores americanos. A influência de Locke estava mais aparente na declaração de independência, na separação constitucional de poderes, e na Bill of Rights [declaração dos direitos dos cidadãos].
Na mesma época, Voltaire, o espirituoso crítico da intolerância religiosa, promovia as ideias de Locke na França. O Barão de Montesquieu desenvolveu as ideias de Locke sobre a separação de poderes. A doutrina de direitos naturais de Locke foi incorporada à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, mas sua crença na separação de poderes e na santidade da propriedade privada nunca fincou raízes na França.
Depois Locke praticamente desapareceu do debate intelectual. Uma reação conservadora tomou a Europa conforme o discurso dos direitos naturais passava a ser associado à rebelião e às guerras napoleônicas. Na Inglaterra, o filósofo utilitarista Jeremy Bentham ridicularizou os direitos naturais, propondo que as políticas públicas fossem determinadas pelo princípio da maior felicidade para o maior número. Mas tanto conservadores quanto utilitaristas ficaram intelectualmente indefesos quando governos exigiram mais poder para roubar, prender, e até assassinar pessoas, pretensamente para fazer o bem.
No século XX, a ficcionista e filósofa Ayn Rand e o economista Murray Rothbard, entre outros, voltaram a fazer vigorosas defesas morais da liberdade baseadas nos direitos naturais, e estabeleceram um padrão moral significativo para determinar se as leis são justas. Eles inspiraram milhões com a máxima de que todas as pessoas, em todos os lugares, nascem com direitos iguais à vida, à liberdade, e à propriedade. Apoiavam-se nos ombros de John Locke.

SOBRE O AUTOR

avatar
Jim Powell, senior fellow do Cato Institute, é especialista na história da liberdade. Seu livro mais recente é Greatest Emancipations: How the West Abolished Slavery.


***
NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002651355455&ref=tn_tnmn

Marcadores: ,

sábado, janeiro 03, 2009

''País não tem cultura republicana''

Alexandre Rodrigues, Estadão

Em 2008, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, invocou um pacto "republicano" contra abusos de autoridade. O termo também esteve na boca do presidente Lula e na do ministro da Justiça, Tarso Genro, para definir a atuação da PF e regular a ação dos agentes. A palavra foi empregada por defensores e detratores de acossados por escândalos, num sentido oposto ao significado do termo, que inspira a virtude cívica, a elevação do coletivo. É o que ensina o historiador José Murilo de Carvalho, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em entrevista ao Estado. Autor do best-seller sobre o imperador d. Pedro II, ele diz que, quase 110 anos após o fim da monarquia, o significado da República não se materializou. A seguir, os principais trechos da entrevista:

MAU USO

"Os temas centrais da campanha de Lula tinham e têm a ver com o social, que não é necessariamente uma característica do republicanismo, nem mesmo da democracia em seu sentido liberal. Quem começou a usar o termo foi o ministro da Justiça, Tarso Genro. O conceito de República usado dentro do PT parece ter uma conotação distinta da do republicanismo como bom governo. República no sentido de coisa pública, bom governo, eficiência, transparência, igualdade perante a lei não é exatamente o que prega e faz o governo. O mensalão é totalmente antirrepublicano. O corporativismo sindical também não é republicano. A política social pode ser defensável, mas não em termos de republicanismo. A inclusão via políticas sociais pode ter ingredientes paternalista e populista e é necessariamente discriminatória. Nada disso é republicano. Melhor seria, para evitar confusão conceitual, que se chamasse a tal visão política de democracia social, ou de socialismo, não de republicanismo."

MENDES E PACTO REPUBLICANO

"Garantir direitos iguais a todos os acusados é republicano, mas também o é garantir punição igual para todos. A reação contra algemar poderosos é aristocrática, não republicana, típica de nossa sociedade hierarquizada. Temos uma cultura profundamente não igualitária, não republicana. É nossa tradição. Essa visão nepotista, paternalista, privatista do Estado permanece até hoje. Então realmente não há cultura republicana no País. E, obviamente, ela não foi incentivada neste governo, que tem seus méritos, mas certamente deixa a palavra ?republicano? vazia nesse contexto."

PRISÃO ESPECIAL

"A melhor maneira, talvez a única, de tornar os presídios no Brasil decentes e humanos seria acabar com esse privilégio. No dia em que pessoas das classes alta e média estiverem sujeitas à prisão comum, haverá enorme pressão para melhorar as condições dos presídios. Seria uma pequena revolução."

TRANSGRESSÃO

"Há uma cultura generalizada da transgressão que afeta todas as classes sociais, de alto a baixo. Furtam o político, o empresário, o juiz, de um lado; furtam, do outro, o profissional liberal, o policial, o trabalhador informal. Furta até mesmo, como agora em Santa Catarina, o soldado do Exército e o flagelado pelas enchentes. Tal cultura tem a ver com valores e instituições. O valor republicano de respeito à lei e à coisa pública não existe."

DEMOCRACIA

"Vamos chegar lá, mas bota meio século aí. Se nos compararmos com outros países, veremos que 20 anos não é nada. O fato de termos mantido as liberdades de imprensa e de organização é muito positivo. Os escândalos são discutidos, ONGs lutam pela transparência das contas públicas e a abertura da caixa preta do Estado. Tudo isso conta. Mas boa parte de nossa população ainda vive no mundo da necessidade. Para quem precisa colocar comida na mesa, democracia e república são luxo."

CONGRESSO

"Uma das piores características de nossa república é a total falência do Congresso. O Executivo sempre teve papel preponderante. O Judiciário sempre foi o Poder menos afirmativo, mas agora entrou no vácuo aberto por um Legislativo submisso ao Executivo e estigmatizado por reiterados escândalos."

ALTERNÂNCIA NO PODER

"Não há como não ver nisso um avanço. E faço aqui um elogio a Lula. No começo de 2008, ele pareceu tentado a embarcar na aventura do terceiro mandato. Posteriormente, parece ter desistido da ideia, crédito que lhe deve ser dado."

Marcadores:

sexta-feira, janeiro 04, 2008

APARTHEID E DEMOCRACIA REPRESENTATIVA
"À medida que o apartheid [na África do Sul] não dava bola para as questões tribais e transformava cor de pele em categoria política – negando direitos aos negros, independentemente de sua origem -, o país se dividiu em duas partes: a minoria branca e a maioria negra; a primeira vivendo segundo as regras da democracia ocidental; a segunda debaixo de uma odiosa discriminação. Os negros passaram a lutar para ser reconhecidos como cidadãos plenos de direito, a exemplo dos brancos. Os discriminados não reivindicam direitos tribais, mas de cidadania.

E qual era o modelo capaz de oferecer o que pediam sem excluir do país os brancos, que formavam a mão-de-obra de elite e detinham o comando da burocracia? A democracia. Qual democracia? Aquela de “um homem, um voto”. Em vez de luta tribal, representação; em vez de arranca-rabo de classes, economia de mercado.

O mundo é UM. A democracia representativa venceu a batalha e é o modelo que pode garantir a luta permanente por mais bem-estar. O resto é aposta na barbárie, como se vê na quase totalidade da África e se prenuncia na Venezuela, na Bolívia e no Equador.
(REINALDO AZEVEDO)

Marcadores:

segunda-feira, novembro 26, 2007

O QUE CARACTERIZA UMA DEMOCRACIA
Valor Econômico
Vai-se ver que é um certo conjunto de regras bem estabelecidas, aceitas e respeitadas por todos, que permita a alternância de poder e dê voz às minorias políticas. Mas para entender isso é útil fazer uma rápida retrospectiva histórica da democracia moderna e de suas características fundamentais.
---------------------------------------
Para que todas as idéias possam ser analisadas por aqueles que vão exercer seu voto, é fundamental que haja liberdade de expressão e de imprensa
---------------------------------------

ORIGEM: DEMOCRACIA DIRETA
A democracia iniciou-se em algumas cidades-Estado gregas. O caso mais conhecido foi o de Atenas. Todos os cidadãos homens e livres, maiores de 18 anos, eram parte da assembléia, a instituição política mais importante. No Século IV A. C., a assembléia reunia-se quatro vezes a cada 36 dias. E, nelas, todos os membros podiam falar, propor emendas e votar. É claro, tal sistema só funcionava nas pequenas comunidades formadas pelas cidades-Estado (Finlay estima que em Atenas, por volta de 430 A. C., existiam de 40 a 45 mil pessoas que seriam integrantes da assembléia). Esta democracia direta mostrou-se incapaz de unificar a Grécia e muito pouco ágil para os tempos que estavam por vir.

ROMANOS: DEMOCRACIA REPRESENTATIVA
Os romanos aperfeiçoaram a democracia, tornando-a representativa (os cidadãos elegem um representante periodicamente que faz o trabalho legislativo para eles). Este sistema mostrou-se muito eficaz e, com o tempo, desde o fim do primeiro reinado em 507 A. C., Roma acabou por conquistar todo o Mediterrâneo. A partir de 44 A. C., quando Júlio César foi indicado ditador vitalício, a democracia começou a perder ímpeto no mundo.

DEMOCRACIA NA INGLATERRA
A primeira grande reviravolta aconteceu em 1215, na Inglaterra, quando João Sem Terra assinou a Carta Magna que instituiu que o rei só poderia aumentar impostos se o parlamento aprovasse. Além disso, seu artigo 29 garantiu que os homens livres não poderiam ter confiscados seus bens ou suas liberdades, nem o rei poderia baixar decreto condenando-o sem julgamento.

Mas, é claro, não é suficiente estar "na lei"! É preciso que todas as pessoas ajam e comportem-se de acordo com a lei. E, para que os preceitos da Carta Magna fossem realmente respeitados, foram necessárias duas revoluções na Inglaterra, a de Cromwell e a Revolução Gloriosa, de 1688, que pôs fim aos monarcas absolutistas ingleses.
Já nesta época Locke observou a importância da independência dos poderes Legislativo e Executivo (na verdade, antes de Locke, Maquiavel também notou isto). Mais tarde, Montesquieu e Madison (este o primeiro a utilizar a expressão sistema de "pesos e contrapesos" para referir-se ao tema) divulgaram a teoria da independência dos poderes como hoje a conhecemos.
A importância da independência é crítica na estabilidade das regras de qualquer democracia, como Tsebellis demonstrou mais recentemente.

Adicionalmente, para que todas as idéias possam ser analisadas por aqueles que vão exercer seu voto, é fundamental que haja liberdade de expressão e sua companheira indissociável, a liberdade de imprensa. Estes ideais foram todos introduzidos na Constituição norte-americana, de 1787, que se manteve inalterada em sua essência desde então. Por fim, regras não valem nada se o respeito às mesmas não estiver arraigado na população.

Em suma, uma democracia moderna exige:
(I) eleições livres para o chefe do Executivo (que é o primeiro-ministro no caso das monarquias modernas);
(II) existência de um Legislativo que também deve ser livremente eleito pela população;
(III) independência do Legislativo e do Judiciário entre si e em relação ao Executivo;
(IV) liberdade de expressão e de imprensa. ÍNTEGRA

Marcadores: ,

domingo, agosto 12, 2007

ORIGEM DO PARLAMENTO E DEMOCRACIA
A Carta Magna inglesa (1215), o mais importante documento político da era feudal, reconheceu direitos civis semelhantes. Embora destinada a proteger os interesses da aristocracia e do clero, ela criou restrições institucionais ao arbítrio, como as do artigo 12, que obrigaram o rei a consultar a assembléia de barões - o embrião dos parlamentos modernos - para criar tributos. O artigo 39 impediu o confisco da propriedade de um nobre.
Foram mais uma vez os ingleses que deram novos passos para restringir o poder discricionário dos governantes. A Lei de Direitos de 1688 transferiu a supremacia do poder para o Parlamento e retirou atribuições do rei para dispor sobre a despesa pública e demitir juízes. Firmavam-se as instituições que garantiriam o direito de propriedade e o respeito aos contratos. Essas e outras mudanças institucionais contribuíram para a expansão do crédito e criaram incentivos ao investimento, que constituíram duas das peças mais fundamentais da Revolução Industrial do século 18.

Medidas adicionais para restringir o arbítrio foram adotadas na Inglaterra e em outros países da Europa no século 19, contribuindo para fortalecer a democracia e para viabilizar o processo de crescimento continuado, até então desconhecido. Os EUA e outras colônias inglesas foram os principais herdeiros dessa tradição.
AQUI

Marcadores:

domingo, junho 17, 2007

"Alternância no poder define as democracias"
CLAUDIA ANTUNES, FOLHA DE SÃO PAULO
O norueguês Jon Elster, professor de teoria política na Universidade Columbia (Nova York) e no Collège de France (Paris), em entrevista à Folha. Elster, 67, esteve na semana passada em Porto Alegre, onde falou sobre "democracia, justiça e eleições" no ciclo Fronteiras do Pensamento, iniciativa da Copesul Cultural e universidades gaúchas que tem trazido ao Brasil nomes importantes das ciências humanas. Autor de "Ulisses e as Sereias" (1979), entre outros livros.

FOLHA - Como vai a democracia no mundo, em sua opinião?
JON ELSTER - Eu considero que hoje só há uma escolha, entre democracia e ditadura; a possibilidade de um governo da elite ou da oligarquia está morta para sempre. Ninguém pode reivindicar superioridade em termos de riqueza, nascimento ou educação. Agora, o que vemos em alguns países como a Rússia é uma forma especial de democracia, que é autoritária. Embora baseada em eleições, é difícil dizer o quanto isso importa. Para uma democracia verdadeira, é preciso ter partidos políticos que se alternem no poder. É o teste para sabermos se estamos diante de um arremedo de democracia ou de uma democracia verdadeira. A Quinta República Francesa só provou ser uma democracia em 1981, quando os socialistas chegaram à Presidência.
FOLHA - Há o argumento de que partidos diferentes governam igual por causa da influência de oligarquias econômicas não eleitas.
ELSTER - Em primeiro lugar, eu não acho que isso se aplique à política externa. Um governo democrata nos EUA possivelmente não estaria numa guerra no Iraque. De maneira geral, há alguma correção no raciocínio de que, numa economia de mercado globalizada, há restrição às ações dos governos. Mas ela é muito ou pouco importante? Depende do país, das políticas. Não dá para generalizar.
FOLHA - O senhor defenderia o voto obrigatório em países onde a abstenção é alta, como os EUA?
ELSTER - Acho que dependeria de quais seriam as sanções para quem não votasse, ou a recompensa para quem votasse. É verdade que existe nos EUA um problema de participação democrática - o último presidente foi eleito por 29% dos eleitores, uma base popular muito pequena. Isso é perigoso.
FOLHA - O senhor diz que chegar a governos estáveis deve ser uma meta dos sistemas eleitorais. Como combinar representação justa e estabilidade?
ELSTER - Com compromissos. Para ter justiça, você pode ter representação proporcional; para ter alguma estabilidade, precisa ter uma cláusula de barreira de 3% ou até 5% dos votos, de modo que os pequenos partidos não possam chegar ao Parlamento. O voto proporcional pode gerar menos estabilidade do que o majoritário, mas pode levar a mais justiça.
FOLHA - O Congresso brasileiro debate a introdução de listas partidárias fechadas. É democrático?
ELSTER - Um sistema em que só os partidos podem designar a ordem dos eleitos é antidemocrático. O sistema ideal tem que combinar algum papel dos partidos na criação das listas mas também a possibilidade de os eleitores modificarem-na.
FOLHA - Que importância o senhor dá ao equilíbrio de poder entre as instituições do Estado?
ELSTER - Tanto a separação dos Poderes quanto a existência de pesos e contrapesos são importantes. Mas nos EUA, por exemplo, há contrapesos demais. O Senado americano é, acredito, uma instituição ridícula por causa do modo como é eleita, dando a todos os Estados o mesmo peso. Hoje, a Alemanha apresenta um bom equilíbrio. Embora tenha um modelo federativo, não dá poder igual a todos os Estados no Senado; há certa proporcionalidade.
FOLHA - O senhor é próximo de proponentes da chamada "democracia deliberativa", que enfatiza o consenso por meio do debate público mais do que a disputa político-eleitoral entre grupos de interesse. Qual a influência do alemão Jürgen Habermas em sua obra?
ELSTER - O meu trabalho sobre a democracia foi de certa maneira inspirado por Habermas. Mas há uma diferença fundamental: Habermas está mais preocupado com princípios normativos da deliberação e eu com os mecanismos de causa e efeito na deliberação e como características institucionais podem melhorar a qualidade da deliberação. Acho que as idéias de Habermas até certo ponto tolhem o debate de fato; quer dizer, as pessoas têm que falar e agir como se fossem "habermasianas".
FOLHA - Como se fossem neutras?
ELSTER - É, imparciais. Isso é o que chamo no meu trabalho de "a força civilizadora da hipocrisia". Então tento usar as idéias de Habermas para explicar o comportamento de pessoas de verdade que são constrangidas pelo meio público. Mesmo se as pessoas estão motivadas apenas pelos seus interesses individuais, as regras e mecanismos do debate público vão forçá-las a justificar suas posições em termos de interesse público. Isso limita o interesse particular, em alguma medida.
FOLHA - O que o senhor acha da idéia da democracia participativa, muito popular na América Latina? ELSTER - Oscar Wilde disse que o problema do socialismo é que a semana só tem sete noites. Do mesmo modo, a democracia participativa às vezes parece exigir mais compromisso e mais recursos do que é razoável esperar das pessoas.

Marcadores:

segunda-feira, junho 11, 2007

DEMOCRACIA É MAIS QUE ELEIÇÕES
A via ocidental
Denis Lerrer Rosenfield, no Estadão
Trata-se de um erro crasso identificar a democracia com a realização de eleições. Eleições são uma condição da democracia, porém não a esgotam. Há outras condições tão ou mais importantes. Para que uma democracia se efetive é necessário: 1) Criar e manter condições para que a oposição, em minoria, possa chegar, por sua vez, ao poder; 2) o respeito ao Estado de Direito, o respeito às regras, que não podem ser mudadas segundo o bel-prazer dos governantes; 3) ampla liberdade de opinião, de organização e de manifestação; 4) independência dos Poderes, de tal maneira que haja um equilíbrio institucional; 5) a autonomia dos meios de comunicação, que não devem ser controlados e monitorados pelo Estado.
O que faz o ditador-presidente da Venezuela? 1) Restringe, cada vez mais, o espaço das oposições, passando, progressivamente, a criminalizá-las por exercerem a sua função; 2) destrói o Estado de Direito - com um Poder Legislativo submisso, o ditador-presidente passa a governar por lei delegada, tornando-se ele mesmo o Poder Legislativo; 3) sufoca a liberdade de opinião, surgindo o crime de delito de opinião, como o de falar mal do ditador-presidente ou de seus familiares - há hoje uma lei que permite processar os adversários, considerados, assim, inimigos, “criminosos”; 4) elimina a autonomia dos Poderes Legislativo e Judiciário, que passam a seguir as ordens do ditador-presidente; 5) monitora os meios de comunicação, controlados pela lei de delito de opinião; alguns são estatizados, de modo que as vozes discordantes se calem. LEIA MAIS

Marcadores:

sexta-feira, maio 25, 2007

Democracia, crescimento e redistribuição
Por que o Brasil não está seguindo um caminho semelhante ao desses países [vizinhos]? Gostamos de pensar que é pela ausência de conflitos étnicos e pela força de nossas instituições democráticas, mas não se deve desconsiderar o papel exercido pelo controle da inflação, o aumento do salário mínimo e a forte elevação dos gastos correntes do governo. Como declarou Ulysses Guimarães na promulgação da Constituição de 1988: "A boca dos constituintes de 1987-1988 soprou o hálito oxigenado da governabilidade pela transferência e distribuição de recursos viáveis para os municípios, os securitários, o ensino, os aposentados, os trabalhadores, as domésticas e as donas-de-casa". Isso serviu para desarmar o tipo de conflito distributivo que alimentou as mudanças políticas em outros países, mas gerou um Estado que investe pouco, depende de uma carga tributária elevada e é fraco na proteção dos direitos de propriedade. Ou seja, que compromete o crescimento. Além disso, essa solução obedece a uma lógica política em que o gasto público cresce muito acima do PIB, e é, portanto, insustentável. VALOR ECONÔMICO/ LEIA MAIS

Marcadores:

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

DEMOCRACIA NÃO É APENAS ELEIÇÃO
Democracia, todos sabem, não é apenas a prevalência da vontade da maioria. Se assim fosse, a Itália de Mussolini e a Alemanha de Hitler poderiam ser consideradas democráticas.
Democracia é também, e principalmente, o respeito aos direitos das minorias, a existência livre de instituições autônomas e independentes do Poder Executivo - tais como a Justiça, o Parlamento e a imprensa, uma oposição bem estruturada e representada, alternância no poder e o respeito sagrado aos contratos, à propriedade e às garantias individuais.
A “vontade popular” não passa de uma muleta semântica de que se socorrem os ditadores populistas para justificar as suas arbitrariedades. Nas democracias autênticas só é justo aquilo que é alcançado por meios justos.
Levando em conta todos estes pressupostos, pode-se afirmar que a Venezuela de Hugo Chávez é uma nação democrática? É óbvio que não.
O nosso singular presidente entende o contrário. Segundo Lula já declarou, “o que há na Venezuela é democracia demais”, fazendo alusão às sucessivas eleições e aos referendos nos quais Chávez trata de se fortalecer.
Ora, democracia se faz com consultas populares periódicas, mas não é apenas isso. Stroessner reelegeu-se sete vezes presidente do Paraguai e todo mundo sabe que foi um típico ditador latino-americano.

Marcadores:

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

REPÚBLICA - CARACTERÍSTICAS
República é o regime político em que os exercentes de funções políticas (executivas e legislativas) representam o povo e decidem em seu nome, fazendo-o com responsabilidade, eletivamente e mediante mandatos renováveis periodicamente.
São, assim, características da república a eletividade, a periodicidade e a responsabilidade.
A eletividade é instrumento da representação. A periodicidade assegura a fidelidade aos mandatos e possibilita a alternância no poder. A responsabilidade é o penhor da idoneidade da representação popular.
Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. Como o povo não pode apresentar-se na função de governo, os seus escolhidos o representam. Governam em seu nome, no seu lugar, expressando sua vontade.
Geraldo Ataliba, em República e Constituição, 2ª edição, pág. 13

Marcadores: ,

quarta-feira, janeiro 31, 2007

DEMOCRACIA MALTRATADA
Época — Como, absolutista?
Roberto Romano — Nós, o Brasil, em relação à concepção de Estado, somos uma espécie de TFP (Tradição, Familia e Propriedade, corrente conservadora da Igreja Católica). A TFP é um anacronismo ambulante. Você conversa com um sujeito da TFP e ele fala como se estivéssemos no século XII : defende o rei, a ordem, a Igreja falando latim e tudo o mais.
Em relação ao Estado, nós, brasileiros, também temos esse anacronismo. Todos os preceitos do Estado democrático de direito são alheios à ordem brasieira.
Por exemplo: o princípio da República, que é a igualdade formal de todo cidadão dentro da lei. Quando você tem o foro privilegiado para os políticos, você tem uma ordem que é aristocrática.
Época — Por isso, o senhor não considera o Brasil democrático?
Roberto Romano — Exatamente. A idéia do poder de rei ser um poder superior, a do chefe de Estado ser um poder superior aos demais poderes. Nós fizemos isso com o poder moderador do império, que foi incorporado à Presidência da República depois, e até hoje temos essa característica.
Nós somos um Estado em que o governo arranca quantos impostos quiser, sem nenhuma objeção séria dos outros poderes. Então você tem uma ordem que é absolutista.

Marcadores: ,

domingo, janeiro 28, 2007

DO ABSOLUTISMO À DEMOCRACIA
Notas para uma Filosofia do Segredo
Prof. Roberto Romano
Com a democracia produzida nas três grandes revoluções modernas —inglêsa do século 17, a norte-americana e a francêsa no século 18— o segredo do Estado absolutista foi atenuado pelas noções de accountability e transparência. Na forma estatal anterior à democracia o soberano não deve satisfações aos parlamentos, aos juízes, aos súditos. Esta tese foi combatida desde longa data na Inglaterra. Edward Coke defendeu a independência dos juizes contra a Igreja Anglicana e contra James I.
(...)
Na fala ao Parlamento de 1616, James proclama que “os reis são justamente chamados deuses; pois exercem um modo de semelhança do Divino poder sobre a terra. Porque se forem considerados os atributos de Deus, vemos o quanto eles concordam com a pessoa de um rei. Deus tem poder de criar ou destruir, fazer ou desfazer ao seu arbítrio, dar vida ou enviar a morte, a todos julgar e a ninguém prestar contas (to be accountable). O mesmo poder possuem os reis. Eles fazem e desfazem seus súditos; têm poder de erguer e abaixar; de vida e morte; julga acima de todos os súditos em todos os casos e só deve prestar contas a Deus (yet accountable to none but God).
(...)
Seria inaceitável para um governante absolutista a soberania popular e a noção de que os dirigentes deviam prestar contas de seus atos, sem guardar segredo, à massa não qualificada. Todos os principes liam nos tratados políticos e na literatura grega ou romana a plena desconfiança no povo. Este, para os latinos, era apenas o populo exturbato ex profugo, o improbante populo, o vulgus credulum, vulgus imprudens vel impudens, vulgus stolidum etc.
(...)
Consideremos a lição de Norberto Bobbio: “O governo democrático desenvolve sua atividade em público, sob os olhos de todos. E deve desenvolver a sua própria atividade sob os olhos de todos porque todos os cidadãos devem formar uma opinião livre sobre as decisões tomadas em seu nome. De outro modo, qual a razão os levaria periodicamente à urnas e em quais bases poderiam expressar o seu voto de consentimento ou recusa? (…) o poder oculto não transforma a democracia, a perverte. Não a golpeia com maior ou menor gravidade em um de seus orgãos essenciais, mas a assassina”. (30 )

Marcadores: , ,

quarta-feira, novembro 15, 2006

Cientista Política Lucia Hippolito, Blog do Noblat

"De uns tempos para cá, fala-se muito no Brasil em posturas republicanas, conversas republicanas e não-republicanas.
Afinal, do que se está falando?
Os principais fundamentos da República, o mundo ocidental herdou da Revolução Francesa. Até hoje, liberdade, igualdade e fraternidade constituem o tripé que sustenta as principais repúblicas democráticas do Ocidente.
Liberdade de imprensa, de expressão, de pensamento. Liberdade de ir e vir, de reunião, de religião. Liberdade do exercício da própria sexualidade, liberdade do uso do corpo, são, entre outras, as principais liberdades dos homens e mulheres contemporâneos.
Liberdades das quais mal nos damos conta quando a democracia funciona, mas que fazem uma falta danada quando somos privados delas. Quem viveu a ditadura no Brasil sabe muito bem disso.
Igualdade é a segunda conquista. Igualdade de todos perante a lei, extinção de privilégios e de foros privilegiados, fim dessa história de que uns são mais iguais do que outros, igualdade de oportunidades de acesso às conquistas da civilização.
Na República contemporânea, os cidadãos exercem plenamente seus direitos e cumprem integralmente seus deveres, sem privilégios.
Fraternidade entre os povos, fim das guerras, dos conflitos e da carnificina, tolerância com os diferentes, este parece ser o mais difícil pilar das virtudes republicanas.
Até hoje a Humanidade se destrói em conflitos presididos, sobretudo, pela ignorância, pela estupidez e pela arrogância.
Mas a República ainda quer dizer mais coisas. Separação total entre Estado e Igreja, separação absoluta entre o Tesouro público e as contas bancárias dos governantes e seus familiares.
Serviço público constituído à base do sistema de mérito, atendimento ao cidadão a partir de regras impessoais, fim do pistolão, do jeitinho, do compadrio.
Educação pública abundante e de qualidade, Poder Legislativo independente da pressão do Executivo, Justiça a serviço do cidadão.
Isto é que quer dizer República.
117 anos depois de proclamada, esta ainda não é a República dos nossos sonhos.
O Brasil avançou uma barbaridade nesses pouco mais de cem anos republicanos, mas ainda temos uma longa estrada pela frente.
O importante é não deixar de caminhar."

Marcadores:

domingo, outubro 22, 2006

ABSOLUTISMO À BRASILEIRA
Blog do filósofo Roberto Romano, da Unicamp
"Em inúmeras ocasiões, tanto nas entrevistas à imprensa, debates, seminários, artigos, alerto para a falsa federação brasileira e a concentração excessiva de todas as políticas públicas nacionais nas mãos do governo que tudo controla em Brasilia.
Mostrei em vários textos que o Brasil, enquanto Estado, ainda mantem a estrutura absolutista moderna, ultrapassada pelos modelos democráticos francês, inglês, norte-americano ainda no século 18.
Somos o resultado de uma engenharia política e jurídica que se esmerou em evitar aqui, nos trópicos, os "excessos" das revoluções de 1789 e, antes dela, as revoluções norte-americana e a inglêsa (esta já no século 17).
Na estrutura absolutista, o Chefe de Estado não presta contas a ninguém, salvo a Deus se for religioso. É a tese de Tiago I, segundo a qual o soberano não deve responder por seus atos a ninguém, porque ele é o "pai" do povo.
A tese, como é sabido, foi retomada por Luis XIV : "O Estado sou Eu". Este modelo foi assumido na Espanha e Portugal no século 18, sobretudo no governo de Pombal. Quando João, o príncipe, foi obrigado a escolher entre a rendição vergonhosa diante de Napoleão, ou a sobrevida nos trópicos, para cá trouxe, nas suas naves, o projeto de um Estado que não sofreria com os males da "accountability" democrática inglêsa e da cidadania francêsa ou da liberdade norte-americana." LEIA MAIS

Marcadores: ,

domingo, julho 16, 2006

NOSSA DEMOCRACIA É MUITO POUCO DEMOCRÁTICA

Estadão: “Os 126 milhões de brasileiros que vão às urnas no dia 1º de outubro escolherão, entre 18.306 candidatos, representantes que, de modo geral, vão representá-los muito pouco, praticamente nada. A democracia está perdendo, aos olhos do cidadão, a batalha da imagem. As desigualdades sociais persistem, o mundo político virou um clubinho fechado.”

Gabriel Manzano Filho entrevista “um craque do direito público, o jurista e ex-ministro da Justiça Célio Borja, 78 anos, veterano estudioso do assunto.”

(...) “Por isso muita gente com vocação política prefere entrar numa ONG ou num movimento social. Acrescente-se a isso o que vimos ocorrer no Brasil: muitos partidos viraram quadrilhas.”

“Pois o que está roendo a idéia democrática junto ao povo, é exatamente o fato de que a nossa democracia é muito pouco democrática. E o povo não tem espaço nem chance. Lembro aqui a concepção de democracia - que adotei como minha - do francês Henri Bergson. Ele diz que a democracia é de essência evangélica. Não é feita para o rico ou poderoso, é um serviço que se presta à comunidade. A ética democrática é a ética do bem comum. E essas coisas estão longe de ser atendidas. Em vez disso temos uma organização funcionando em favor de grupos. Falta é uma alma, uma ética do Estado a serviço de cada um de nós.”

“Essa história de que somos imorais, mais corruptos do que no passado, não é verdade. O brasileiro é hoje mais educado, mais alfabetizado.”

Leia a íntegra da entrevista no Estadão de domingo.


PS: O retrato é do filósofo iluminista francês Montesquieu (1689-1755), famoso pela teoria da separação dos poderes, base da democracia republicana.

Marcadores:

sexta-feira, julho 14, 2006

República e a Inconfidência Mineira

Foto: Museu da Inconfidência
Do site HISTORIANET: "O movimento mineiro foi o primeiro a realmente manifestar com clareza a intenção da colônia de romper suas relações com a metrópole. Outras rebeliões já haviam ocorrido na colônia que, no entanto, possuíam reivindicações parciais, locais, que nunca propuseram a Independência em relação a Portugal. A importância da Inconfidência Mineira reside no fato de exprimir a decadência da política colonial e ao mesmo tempo a influência das idéias iluministas sobre a elite colonial que, na prática, foi quem organizou o movimento.
(...)
O ideal Iluminista difundiu-se na Europa ao longo do século XVIII, principalmente a partir da obra de filósofos franceses e teve grande repercussão na América; primeiro influenciando a Independência dos EUA e posteriormente as colônias ibéricas. Ao longo do século XVIII tornou-se comum à elite colonial, enviar seus filhos para estudar na Europa, onde tomaram contato com as idéias que clamavam por direitos, liberdade e igualdade. De volta a colônia, esses jovens traziam não só os ideais de Locke, Montesquieu e Rousseau , mas uma percepção mais acabada em relação a crise do Antigo Regime, representada pela decadência do absolutismo e pelas mudanças que se processavam em várias nações, mesmo que ainda controladas por monarcas despóticos." Leia a íntegra aqui.

Marcadores:

terça-feira, julho 11, 2006

DEMOCRACIA: O triunfo inacabado do Direito Constitucional

Por Luís Roberto Barroso

“O constitucionalismo democrático foi a ideologia vitoriosa do século XX. Nele se condensam as promessas da modernidade: poder limitado, dignidade da pessoa humana, preservação e promoção dos direitos fundamentais, realização da justiça material, respeito à diversidade.
(...)
O triunfo do constitucionalismo, no entanto, deve ser celebrado com humildade e moderação. Boa parte das conquistas obtidas deram-se apenas no plano das idéias. Não se deve encobrir a constatação de que, no Brasil e no mundo, mesmo sob a égide de Estados constitucionais de Direito, uma imensa legião de pessoas não desfruta dos benefícios do progresso, do acesso aos valores civilizatórios e aos bens de consumo mínimos.

Os desafios do constitucionalismo no século XXI incluem realizar a travessia entre a teoria e a prática e promover inclusão social, contribuindo para a institucionalização de um modelo político democrático, capaz de potencializar a geração de riquezas materiais e imateriais e de distribuí-las adequadamente pelas pessoas.”


Leia a íntegra no Blog do Noblat.

Marcadores:

Google
online
Google